A viagem iniciou-se discretamente, após a chegada de um familiar que teria como missão trazer a burra de volta a casa. Bem como trazer as novas dos primeiros momentos de viagem.
Os cerca de meia dúzia de quilómetros percorridos pela burra foi interrompida apenas uma três ou quatro vezes por teimosias do animal. Pouco, para o que era costume. A isso não seria alheio o repasto de que tinha beneficiado e que certamente almejava repetir. O tempo perdido foi tão pouco se comparado com as expetativas que o nosso leitor nem se lamentou não lhe ter falado no burrico, um ensinamento de Sebastião Antunes, com a Quadrilha e acompanhado pelos Galandum Galundaina, que não teria esquecido numa ocasião dessas, se ele, o ensinamento, já existisse.
O fumo apareceu no horizonte e o ruído que se lhe juntou tirou todas as dúvidas sobre se se tratava do comboio esperado. Era mesmo ele. Mal tinha passado meia hora daquela que deveria ser a hora de partida, pelo que o relato do familiar no seu regresso à terra não poderia ser outro que não fosse falar numa completa normalidade. O que restava da viagem decorreu também sem incidentes. A mudança do comboio a vapor para o comboio puxado por uma máquina a gasóleo deu-se rapidamente. Este aguardava a chegada daquele para partir. Ao cair da noite daquele dia de Verão tinha completado os quase 200 quilómetros em linha reta que percorrera.
Foi bom ninguém, para além de nós, se aperceber destes pensamentos. Caso contrário, provavelmente iriam desenrolar-se conversas paralelas, com prejuízo para o leitor que tem bastante mais que fazer do que estar a ler isto. Assim, como só nós nos apercebemos e dada a nossa experiência em cingir-nos ao essencial, o leitor tem a garantia de ser reduzido ao mínimo tudo aquilo que não leve diretamente ao cerne da questão. Imagine o leitor que um orientista, talvez o próprio leitor que, bem sabemos, é participante desta sessão, se tinha apercebido da referência à “linha reta” ao falar de uma distância. Provavelmente iria dizer logo ao leitor mais próximo não ver essa necessidade da referência à linha reta. É certo que é também usual fazer-se referência à distância pela melhor opção, mas essa já depende do traçador de percursos. É que, não raro, verifica-se à posteriori serem distintas nalgumas pernadas a melhor opção para os homens e a melhor opção para as mulheres. A parte física tem a sua influência. Pedir a um comboio a vapor para, sem ter um túnel que o ajude, passar em linha reta de um lado a outro da montanha pode não ser melhor que sugerir que a contorne. Claro que o engenheiro e o construtor da linha saberão bem isso. E saberão tanto melhor quanto melhores forem as relações com o fornecedor do ferro para os carris. O matemático confirmaria que a distância entre dois pontos é o comprimento do segmento de reta que os une. E a conversa prosseguiria, não nos restando alternativa a pôr um travão no seu relato. Assim, como ela não aconteceu, ficou tudo mais fácil tanto para mim como para o leitor. Eu não tive que a transcrever e o leitor não precisou de perder tempo a ler. Avancemos então.
Foi recebido com alegria. Nos dias que se seguiram tratou do passaporte e respondeu a uma proposta de emprego. Longe, bem longe. Perto, talvez, de locais onde a orientação já nesse tempo era praticada.
A descrição das peripécias, não deve ser do interesse do leitor. De facto, a descrição de uma prova de orientação em que se andou à cola isto é, atrás de outro, terá já entendido o orientista, não é interessante embora por vezes seja eficaz. Não deve ser praticado, salvo uma primeira vez, por quem quiser ser campeão do mundo. Nem sequer campeão da sua rua. É como fazer um teste de matemática com recurso a conhecimentos que não os seus. Uma vez é eficaz. A longo prazo, se o possível empregador quiser ter os melhores empregados, talvez se revele um prejuízo. Não me saí muito mal nesta justificação que me permitiu ignorar uma parte da história. O leitor não iria gostar da alternativa que é ser lembrado que as memórias orais desvanecem depressa.
Finalmente tinha consigo os papéis que lhe permitiram ir sem problemas, isto é um eufemismo para significar sem o risco eminente de ser preso, trabalhar, e muito, para um país em que se falava uma língua da qual não se percebia uma palavra.
Está o leitor admirado? Oportunidades não é coisa de agora. As novas foram-no, mas não resistiram, por certificar a ignorância. As velhas, essas permanecem e no sítio do costume. Lá fora.
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