Bem vindo (pensamentos – 6)

A viagem iniciou-se discretamente, após a chegada de um familiar que teria como missão trazer a burra de volta a casa. Bem como trazer as novas dos primeiros momentos de viagem.
Os cerca de meia dúzia de quilómetros percorridos pela burra foi interrompida apenas uma três ou quatro vezes por teimosias do animal. Pouco, para o que era costume. A isso não seria alheio o repasto de que tinha beneficiado e que certamente almejava repetir. O tempo perdido foi tão pouco se comparado com as expetativas que o nosso leitor nem se lamentou não lhe ter falado no burrico, um ensinamento de Sebastião Antunes, com a Quadrilha e acompanhado pelos Galandum Galundaina, que não teria esquecido numa ocasião dessas, se ele, o ensinamento, já existisse.
O fumo apareceu no horizonte e o ruído que se lhe juntou tirou todas as dúvidas sobre se se tratava do comboio esperado. Era mesmo ele. Mal tinha passado meia hora daquela que deveria ser a hora de partida, pelo que o relato do familiar no seu regresso à terra não poderia ser outro que não fosse falar numa completa normalidade. O que restava da viagem decorreu também sem incidentes. A mudança do comboio a vapor para o comboio puxado por uma máquina a gasóleo deu-se rapidamente. Este aguardava a chegada daquele para partir. Ao cair da noite daquele dia de Verão tinha completado os quase 200 quilómetros em linha reta que percorrera.
Foi bom ninguém, para além de nós, se aperceber destes pensamentos. Caso contrário, provavelmente iriam desenrolar-se conversas paralelas, com prejuízo para o leitor que tem bastante mais que fazer do que estar a ler isto. Assim, como só nós nos apercebemos e dada a nossa experiência em cingir-nos ao essencial, o leitor tem a garantia de ser reduzido ao mínimo tudo aquilo que não leve diretamente ao cerne da questão. Imagine o leitor que um orientista, talvez o próprio leitor que, bem sabemos, é participante desta sessão, se tinha apercebido da referência à “linha reta” ao falar de uma distância. Provavelmente iria dizer logo ao leitor mais próximo não ver essa necessidade da referência à linha reta. É certo que é também usual fazer-se referência à distância pela melhor opção, mas essa já depende do traçador de percursos. É que, não raro, verifica-se à posteriori serem distintas nalgumas pernadas a melhor opção para os homens e a melhor opção para as mulheres. A parte física tem a sua influência. Pedir a um comboio a vapor para, sem ter um túnel que o ajude, passar em linha reta de um lado a outro da montanha pode não ser melhor que sugerir que a contorne. Claro que o engenheiro e o construtor da linha saberão bem isso. E saberão tanto melhor quanto melhores forem as relações com o fornecedor do ferro para os carris. O matemático confirmaria que a distância entre dois pontos é o comprimento do segmento de reta que os une. E a conversa prosseguiria, não nos restando alternativa a pôr um travão no seu relato. Assim, como ela não aconteceu, ficou tudo mais fácil tanto para mim como para o leitor. Eu não tive que a transcrever e o leitor não precisou de perder tempo a ler. Avancemos então.
Foi recebido com alegria. Nos dias que se seguiram tratou do passaporte e respondeu a uma proposta de emprego. Longe, bem longe. Perto, talvez, de locais onde a orientação já nesse tempo era praticada.
A descrição das peripécias, não deve ser do interesse do leitor. De facto, a descrição de uma prova de orientação em que se andou à cola isto é, atrás de outro, terá já entendido o orientista, não é interessante embora por vezes seja eficaz. Não deve ser praticado, salvo uma primeira vez, por quem quiser ser campeão do mundo. Nem sequer campeão da sua rua. É como fazer um teste de matemática com recurso a conhecimentos que não os seus. Uma vez é eficaz. A longo prazo, se o possível empregador quiser ter os melhores empregados, talvez se revele um prejuízo. Não me saí muito mal nesta justificação que me permitiu ignorar uma parte da história. O leitor não iria gostar da alternativa que é ser lembrado que as memórias orais desvanecem depressa.
Finalmente tinha consigo os papéis que lhe permitiram ir sem problemas, isto é um eufemismo para significar sem o risco eminente de ser preso, trabalhar, e muito, para um país em que se falava uma língua da qual não se percebia uma palavra.
Está o leitor admirado? Oportunidades não é coisa de agora. As novas foram-no, mas não resistiram, por certificar a ignorância. As velhas, essas permanecem e no sítio do costume. Lá fora.

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Bem vindo (pensamentos – 5)

Sim, a viagem foi parcialmente feita num comboio a vapor. Mas ela começou antes.
Tinha-se levantado com os primeiros raios de sol. A ansiedade mal tinha deixado que pregasse olho durante a noite. E o caso não era para menos. Afinal, pondo de lado aquela tentativa frustrada de ilegalmente passar a fronteira, tratava-se da viagem mais longa em que iria ter saudades dos filhos.
A passagem pelo barbeiro tinha acontecido no dia anterior. O saco da roupa também havia sido previamente preparado. No cimo, bem perto do fundo, ia o pão da aldeia para que quem o ia receber matasse saudades.
O nosso leitor, cujos pensamentos estamos a relatar, teve a lucidez suficiente para não incluir nos pensamentos a parte dolorosa correspondente às despedidas. Esses não ligariam bem com uma alegre sessão de boas vindas a um blog, livro ou ebook, no qual o papel principal está reservado à matemática e à orientação, em partes iguais. O papel da imaginação é secundário. Por não ligarem bem, seríamos forçados a excluir esses pensamentos, o que, claramente não é o nosso papel.
A primeira coisa que fez foi dar de comer ao animal que afinal seria o seu meio de transporte para a primeira parte do caminho.
A burra achou estranho ter tão farta refeição, mas, agradada, disse para consigo própria que não iria deixar o dono ficar mal. Confirmou-se: reduziu significativamente o número de vezes em que se recusou a andar durante uma viagem deste tamanho.

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Bem vindo (pensamentos – 4)

O tempo perdido até se reencontrar não foi de horas. Foram apenas uns minutos. O suficiente para perder muitos lugares na classificação. O que vale é que da prova ainda ficaram muitas vitórias. Vários dos outros postos de controle deixaram a sensação de vitória ao serem avistados. Estavam lá, mesmo onde o nosso convidado e praticante de orientação esperava. A sensação era semelhante à que sentia quando concluía a
resolução de um exercício de matemática. Este nosso leitor, que é ao mesmo tempo convidado da sessão de boas vindas estremeceu um pouco, olhou em volta e acalmou ao assegurar-se de que ninguém se tinha apercebido que ele mentalmente tinha estado fora. Na lua, talvez. Claro que os convidados não estariam interessados nos detalhes do desenrolar dessa prova e provavelmente também não estariam nos pensamentos em si. Referir uma mera distração seria suficiente para o relato da prova.
O leitor acalmou. Decorriam algumas conversas paralelas, pretensamente sobre matemática ou orientação, mas não viu nada que o motivasse (a avaliar pelos relato que se têm visto, compreende-mo-lo bem!) e voltou a distrair-se. É certo que ele não se lembrou que alguém, atento aos seus pensamentos, poderia fazer o relato desta sua distração. Mas é esse, definitivamente, o nosso dever.

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Bem vindo (explicações – 2)

Este post bem poderia ter “conversas paralelas” no título. No entanto, sendo a conversa, que sentimos obrigação de relatar por se ter passado na sessão de boas vindas a este blog, motivada pelo título do post anterior que deixou intrigados alguns dos participantes nessa sessão, que também poderíamos designar por leitores, resolvemos não complicar. Isso levar-nos-ia a ter que dar grandes explicações acerca dos títulos e não é esse o objetivo deste blog, ou livro, como às vezes também dizemos, que pretende ser simples. Apesar do intervalo feito e já justificado no post que mereceu a palavra “explicações” no título, nós não mudamos. Continuamos a cingir-nos ao essencial. Como o leitor poderá comprovar, com uma certeza que eu agora não tenho, embora possa vir a tê-la antes do leitor, caso releia o que escrevi, ainda nem um terço dos carateres dedicados a este post gastei e vou já começar, sem perder tempo, o que me levou a escrevê-lo.
A conversa que é objeto deste post desenrolou-se entre entre um professor de matemática, praticante de orientação e um praticante de orientação que não era professor de matemática. Se algum deles tinha imaginação por forma a poder considerar-se ter alguma, não sabemos. Seria razoável pensar que sim, já que ela, a imaginação, para além da matemática e da orientação, ajuda a formar o título deste blog. O participante que não era professor de matemática referiu que, como toda a gente, gostava de ensinar aquilo que sabia, ou aprendia com o objetivo de ensinar. Isso mesmo, quando se pretende fazer um ensino teórico de orientação há que ir um pouco além daquilo que se sabe e consequentemente deve aprender-se para ensinar. E referiu conseguir ter uma audiência atenta que depois não precisava de pagar explicações. Complementava a aprendizagem com quem sabia mais e, sobretudo, praticava. Treinava, também poderia dizer-se.
O professor de matemática nem sempre sentia o mesmo. Sentia haver aulas que a sociedade obriga a frequentar mas aceita sejam assistidas de forma desatenta. E a desatenção propaga-se. As explicações, ainda que se destinem a preparar exames, por corresponderem a um esforço monetário deixarão sensação de todo o esforço estar a ser feito. Com prejuízo daqueles que preferem aprender. Nas aulas e com o seu trabalho.
E agora, perguntará o leitor, onde pára a imaginação no meio de tudo isto?

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Bem vindo (explicações)

Tal como temia o leitor, que além de leitor é um dos convidados desta sessão de boas vindas… Bem, agora exagerei: deveria ter dito algo como “que é convidado” e ponto, pois assim ficava a porta aberta à inexistência de qualquer convidado e, portanto, também de qualquer leitor. Aquilo que o leitor temia, e que neste momento estará a pensar que com fundada razão, era que a existência de um ebook no qual são batidos recordes atrás de recordes no que diz respeito ao número de vezes que a palavra matemática aparece e que ainda por cima é completamente grátis traria água no bico… E isso, não deixaria de ser que a combinação “explicações” e “matemática” é garantia de muitas visitas. Certamente mais que se a combinação fosse feita apenas com a palavra “orientação” ou mesmo outra que resultasse de uma forte dose de “imaginação”, o que, como o leitor sabe, não existe neste blog a que às vezes damos o nome de ebook ou mesmo livro em virtude dos formatos em que é tornado público.

E o leitor, dizer muitíssimo atento leitor estaria muito longe de traduzir o feito heróico de este se ter mantido a ler até aqui e o autor está com dificuldade em imaginar um melhor superlativo, por isso continuamos a usar a singela designação, o leitor, dizia, merecia bem melhor que ser vítima dos interesses do autor. E é por isso que este, o autor, resolveu dar-lhe uma explicação. Não de matemática nem de orientação, é certo, mas da razão de não lhe ter dado nestes últimos tempos conta daquilo que se vai passando na sessão de boas vindas que continua a decorrer. Dizer que não se tem passado nada de interessante não seria dar novidade nenhuma ao leitor e por isso peço-lhe que faça de conta que esta frase que vai terminar já a seguir não existe. O problema tem sido mesmo a falta de tempo. Que terá o leitor ficado a pensar desta explicação? Será uma ameaça que se concretizará quando houver mais tempo disponível?

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Bem vindo (pensamentos – 3)

Compreenderá o leitor a nossa dificuldade em escrever um post sobre pensamentos. Não fosse o aparente começar com o número 2, o que aconteceu no post anterior, talvez o leitor até apostasse que não chegaremos ao Pensamentos – n, com n não inferior a 10. Não podemos arriscar qualquer sugestão sobre se o deve ou não fazer; apenas podemos advertir que há que ter algum cuidado quando se fazem apostas. Devemos é esclarecer que o aparente antes escrito é mesmo isso. É fácil ao leitor recorrer ao índice que o livro tem à sua disposição para constatar que já antes havíamos escrito um post sobre esse tema. Se está a tentar recorrer à sua memória para se lembrar do post por via de alguma coisa interessante que na altura tivesse sido escrita, advirto-o que talvez não chegue lá. Mas não precisa de se queixar da sua memória, embora fazê-lo fosse lisonjeiro para o autor: ficava a sensação de ter alguma vez escrito algo interessante, embora saibamos não ser verdade.

Adivinhar pensamentos não é possível, já o dissemos nalguma altura, embora pudéssemos suavizar a coisa dizendo simplesmente que não é fácil! Nem o autor, dos pensamentos, consegue, em geral, reproduzi-los fielmente. Isto para não falar daqueles pensamentos de alguém que tenta adivinhar o que outrem estará a pensar.

Vamos então falar de pensamentos ocorridos numa prova de orientacão. Talvez orientação pedestre, já que pode acontecer o leitor não se sentir motivado para se inteirar de pensamentos que possam ter ocorrido numa prova de orientação em ski ou mesmo em btt. Se se tratava de uma prova individual ou de estafetas, não sabemos. Assim como não sabemos a distância embora sejamos tentados a pensar que não se tratava de uma prova de sprint, que o vencedor deveria cumprir em pouco mais de 12 minutos, nem uma ultra-longa, que nem o vencedor conseguiria concluir em menos de duas horas.

Como depois confirmou ao ver os dados registados pelo gps que levava no pulso, seguia na rota certa em direção ao posto de controle quando de repente se lembrou daquela viagem parcialmente feita em comboio a vapor. Foram muitas horas.

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Bem vindo (pensamentos – 2)

Num daqueles momentos em que depois de ter estado muito atento a algo, talvez à garrafa de champanhe, do caro, distraído, diriam alguns, um dos intervenientes ficou absorvido nos seus pensamentos. Foram breves instantes e, se nos exceptuarmos, poderemos dizer que ninguém deu por nada. Reviveu aqueles outros instantes em que andou completamente perdido, como se diz na gíria da orientação. Ora, nós bem sabemos que isso não é verdade. Se fosse permitido um erro de 100 metros para assinalar a sua posição no terreno (o que certamente aconteceria se ele estivesse a usar um mapa com uma escala suficientemente pequena) poderíamos dizer que ele sabia exatamente onde estava. A verdade é que ele não conseguia estabelecer uma correspondência entre pontos pretos que via no mapa e as rochas que via à sua volta. A forma como resolveu o seu problema, não sabemos. E claro, como não sabemos não vamos aqui imaginar uma qualquer solução e correr o risco de não dizer a verdade ao leitor. Os pensamentos fazem-nos, no entanto, ter uma ideia de como o problema foi criado. São esses que vamos procurar relatar.

Esses pensamentos, tal como insinuamos terem ocorrido numa prova de orientação, poderíamos dizer provirem de uma aula de matemática ou mesmo de uma conferência de matemática. Poderíamos mesmo referir-nos a uma conferência de uma certa área da matemática, mas com isso iríamos introduzir um indesejável grau de especialização neste blog, que às vezes designamos por livro e que pretendemos seja generalista e adequado a qualquer idade. Além disso, se disséssemos que estávamos a relatar pensamentos ocorridos na sessão de boas vindas, bem sabemos, com referência a outros ocorridos antes numa conferência de semigrupos, para além de não ser muito interessante, não estaríamos a cumprir o nosso propósito de ter o blog, ou livro, se o leitor preferir esta designação, em que o recorde do número de vezes em que a palavra matemática é referido seja realmente digno de ser chamado recorde.

Também poderíamos dizer tratar-se de pura imaginação do autor. Isso teria a desvantagem encorajar alguns a pôr um ponto final na leitura. Refiro-me àqueles leitores mais atentos e que já perceberam que essa, a imaginação do autor, não existe. Ora esses leitores, não faz mal imaginar que existe pelo menos um, temos que estimá-los.

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